Na Groenlândia, o avanço geopolítico sobre o Ártico ameaça apagar saberes que sustentaram a vida em condições extremas por séculos.
Por Victoria Alves, PhD | NaqīKarbon
imagem: Wirestock (Freepik)
A Groenlândia voltou ao centro do tabuleiro geopolítico — não por acaso. A insistência do governo dos Estados Unidos, durante a presidência de Donald Trump, em tratar o território como ativo estratégico — por meio de declarações públicas, pressões diplomáticas e enquadramentos sob a lógica de “segurança nacional” — revelou mais do que um gesto político isolado. Expôs uma racionalidade recorrente: quando o clima abre novas rotas e possibilidades de exploração, territórios passam a ser reinterpretados como espaços disponíveis, independentemente de quem os habita.
Mas a Groenlândia não é vazia.
Cerca de 88% de sua população é composta pelos Kalaallit, povo inuíte, cujas formas de vida, organização social e sistemas de conhecimento estão profundamente entrelaçados com a ecologia ártica. Reduzir a ilha a uma peça geoeconômica — estratégica por minerais críticos, rotas marítimas emergentes e posicionamento militar — implica ignorar deliberadamente os fundamentos humanos e culturais que sustentam aquele território há séculos.
“Kalaallit Nunaat — ‘Nossa Terra’, é como os povos inuítes da Groenlândia chamam o território que habitam.”
O Ártico aquece aproximadamente quatro vezes mais rápido do que a média global. O degelo acelerado não apenas transforma paisagens, mas viabiliza novas infraestruturas, exploração mineral e corredores logísticos. É nesse ponto que a lógica geopolítica se torna especialmente sensível: quando o colapso climático é convertido em oportunidade estratégica, os custos humanos tendem a ser tratados como externalidades administráveis.
Os saberes tradicionais inuítes — que incluem leitura refinada do gelo, interpretação do comportamento animal, compreensão de ciclos sazonais, navegação e sobrevivência em ambientes altamente instáveis — não constituem folclore nem conhecimento residual. Trata-se de sistemas epistemológicos complexos, desenvolvidos empiricamente ao longo de gerações, essenciais para a segurança alimentar, a coesão comunitária e a adaptação a um ambiente extremo.
A erosão desses saberes representa não apenas uma perda cultural, mas uma perda funcional de capacidades adaptativas fundamentais em um contexto de crise climática. Quando potências globais disputam territórios sem reconhecer povos originários como sujeitos políticos centrais, o risco se manifesta em duas frentes. A primeira é a aceleração da erosão cultural, impulsionada por deslocamentos, urbanização forçada e ruptura de modos de vida tradicionais. A segunda é a fragilização da própria governança ambiental: decisões passam a ser baseadas em métricas externas, frequentemente desconectadas da ecologia real e do conhecimento situado do território.
A Groenlândia, nesse sentido, funciona como um espelho antecipado do futuro climático global. O conflito que se desenha não é apenas entre Estados, mas entre duas racionalidades opostas: uma que concebe o território como ativo explorável e outra que o entende como sistema vivo, habitado e interdependente.
Ignorar os inuítes não constitui apenas um erro moral. É um erro estratégico. Em um mundo atravessado por uma crise climática sistêmica, enfraquecer ou silenciar saberes que sustentaram a vida em condições extremas por séculos significa optar por soluções de curto prazo em detrimento da própria capacidade coletiva de adaptação.
A questão central, portanto, não é se a Groenlândia “pode” ser integrada a interesses externos. A pergunta decisiva é: que tipo de futuro climático está sendo construído quando povos que dominam, na prática, a arte da adaptação são excluídos exatamente no momento em que mais precisamos aprender com eles.
Referências e leitura recomendada:
- Council on Foreign Relations. (2026). The Trump Administration’s Push for Greenland. https://www.cfr.org/article/greenlands-independence-what-would-mean-us-interests
- CNN Brasil. (2026, 10 de janeiro). Entenda a história da Groenlândia e por que Trump quer a ilha.
https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/entenda-a-historia-da-groenlandia-e-por-que-trump-quer-a-ilha/ - International Work Group for Indigenous Affairs. (2023). The Indigenous World 2023: Kalaallit Nunaat (Greenland).https://iwgia.org/en/kalaallit-nunaat-greenland.html
- European Parliamentary Research Service. (2025). Greenland: Caught in the Arctic geopolitical contest.
https://www.europarl.europa.eu/RegData/etudes/BRIE/2025/769527/EPRS_BRI%282025%29769527_EN.pdf - Rantanen, M., Karpechko, A. Y., Lipponen, A., Nordling, K., Hyvärinen, O., Ruosteenoja, K., Vihma, T., & Laaksonen, A. (2022). The Arctic has warmed nearly four times faster than the globe since 1979. Communications Earth & Environment, 3, 168. https://doi.org/10.1038/s43247-022-00498-3;
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https://www.un.org/en/chronicle/article/climate-change-arctic-inuit-reality - Wenzel, G. W. (1999). Traditional Ecological Knowledge and Inuit: Reflections on TEK Research and Ethics. Arctic, 52(2), 113–124. https://doi.org/10.14430/arctic916
- Laidler, G. J. (2006). Inuit and scientific perspectives on the relationship between sea ice and climate change: The ideal complement? Climatic Change, 78, 407–444. https://doi.org/10.1007/s10584-006-9064-z
- Reuters. (2025, 11 de março). Greenland’s independence gradualists win election amid US interest.
https://www.reuters.com/world/europe/greenland-election-tests-independence-ambitions-us-interest-looms-2025-03-11/ - Malik, I. H., Ahmed, R., Ford, J. D., & Hamidi, A. R. (2025). Arctic Warming: Cascading Climate Impacts and Global Consequences. Climate, 13(5), 85. https://doi.org/10.3390/cli13050085



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