Guerra, Energia e Clima: o Custo da Instabilidade

Impactos do conflito no Oriente Médio para as metas climáticas de descarbonização

Guerras raramente aparecem nos modelos de política climática. Mas seus efeitos podem superar, em poucos meses, reduções obtidas por anos de políticas de mitigação.

Por: Victoria Alves & Pedro Boreck | NaqīKarbon

O conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã provocou a maior disrupção no mercado global de petróleo desde a crise de 1973, com o fechamento do Estreito de Ormuz, rota por onde transitam mais de 20% do petróleo mundial. Além dos impactos ambientais associados a ataques a infraestruturas petrolíferas, a crise expõe limites estruturais da governança climática contemporânea, incluindo a ausência de contabilização sistemática das emissões militares, estimadas em cerca de 5,5% do total global.

Para o Brasil, o episódio revela uma posição ambivalente: embora o país possua uma matriz elétrica majoritariamente renovável, permanece exposto a choques em cadeias estratégicas como fertilizantes, insumos farmacêuticos e tecnologias de armazenamento de energia. Nesse contexto, o fortalecimento da coordenação institucional — incluindo a evolução da atual Sala de Monitoramento do Abastecimento para um Gabinete de Crise Energética interministerial — torna-se um instrumento estratégico de segurança energética e resiliência climática.

Impactos Ambientais Sistêmicos: Poluição Atmosférica, Contaminação Hídrica e Risco Ecossistêmico

Conflitos armados que atingem infraestruturas energéticas produzem impactos ambientais que transcendem o campo de batalha. Incêndios em depósitos de petróleo liberam na atmosfera uma mistura complexa de poluentes — dióxido de enxofre, óxidos de nitrogênio (precursores da chuva ácida), hidrocarbonetos, material particulado fino e compostos cancerígenos —, aos quais se somam metais pesados das estruturas destruídas, ampliando o alcance e a persistência da contaminação. Os efeitos sobre a saúde humana são imediatos e duradouros: dificuldades respiratórias, irritações, e, conforme a literatura, doenças cardiovasculares, neurológicas, complicações gestacionais e câncer.

Esses contaminantes, ao depositarem-se no solo e na água, passam a circular em ciclos ecológicos por décadas. A infiltração em lençóis freáticos compromete reservas de água potável, enquanto ecossistemas costeiros tornam-se vulneráveis à contaminação química e a derramamentos de petróleo associados à reorganização de rotas energéticas. Exemplo recente é a precipitação escura sobre áreas do Irã após ataques a depósitos, fenômeno consistente com conflitos anteriores, em que plumas de poluentes deslocaram-se por centenas de quilômetros.

A guerra também expõe fragilidades críticas nas infraestruturas hídricas do Golfo. Estações de dessalinização, responsáveis por grande parte do abastecimento regional, operam integradas a centrais elétricas em sistemas de cogeração. Ataques à infraestrutura energética podem, assim, comprometer simultaneamente eletricidade e água potável, como já relatado por autoridades locais. Essa interdependência revela uma vulnerabilidade estrutural: a dependência de sistemas fósseis para garantir segurança hídrica em ambientes áridos transforma energia e água em alvos estratégicos, amplificando os riscos ambientais e humanitários da guerra.

Limites do Modelo Atual de Descarbonização em um Mundo em Conflito

O conflito no Oriente Médio expõe uma tensão estrutural na governança climática global. Enquanto países como o Brasil avançam em compromissos de descarbonização e estruturam mercados de carbono, a dinâmica geopolítica segue produzindo emissões em escala significativa por meio de conflitos armados e da infraestrutura militar que sustenta a ordem internacional.

Antes mesmo da escalada recente, as forças armadas globais já respondiam por cerca de 5,5% das emissões anuais de gases de efeito estufa — mais do que qualquer país, exceto China, Estados Unidos e Índia. Essas emissões, porém, permanecem à margem da arquitetura climática: os acordos globais, incluindo o Acordo de Paris, não estabelecem obrigações para sua contabilização sistemática. Conflitos as amplificam: operações militares, destruição de infraestrutura energética e reorganização de rotas comerciais aceleram o consumo de combustíveis fósseis, enquanto incêndios em refinarias adicionam picos concentrados de poluentes.

Tais episódios não invalidam os instrumentos econômicos da política climática, mas revelam os limites de um modelo focado no âmbito civil. Como observa Neta Crawford, os impactos climáticos da guerra podem superar rapidamente as reduções obtidas por políticas de mitigação incremental. A dimensão geopolítica acentua-se na posição da China, maior importador global de petróleo e principal dependente de Ormuz — dependência que os Estados Unidos enxergam como alavanca para reconfigurar equilíbrios de poder na Ásia, transformando segurança energética em moeda de troca na disputa hegemônica.

Para o Brasil, cuja matriz é majoritariamente renovável, a transição energética precisa ser compreendida também como questão de segurança de Estado e resiliência econômica, não apenas como resposta a mercados, mas como imperativo diante de um sistema internacional volátil.

A Matriz Energética Brasileira: Vantagens Estruturais e Gargalos de Armazenamento

O Brasil dispõe de vantagens estruturais incomuns para enfrentar cenários de instabilidade energética global. Segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica, cerca de 84,73% da capacidade instalada de geração elétrica do país provém de fontes renováveis, principalmente hidrelétricas, eólicas e solares. Apenas a expansão recente da geração solar adicionou aproximadamente 1.286 MW de capacidade instalada, refletindo a aceleração da diversificação da matriz elétrica brasileira.

Essa vantagem, contudo, convive com gargalos estruturais importantes. O principal deles é a limitada capacidade de armazenamento de energia. Sistemas elétricos resilientes dependem de energia firme e estável — requisito que a intermitência das fontes eólica e solar, isoladamente, não consegue garantir. Soluções de armazenamento em baterias em larga escala começam a ganhar espaço no debate regulatório brasileiro, mas a implementação ainda avança lentamente diante da velocidade das transformações do setor energético global.

Nos últimos anos, o país começou a responder institucionalmente a esse desafio. A Lei 15.269/2025 reconheceu formalmente o armazenamento como atividade regulada, e discutem-se leilões específicos para contratação de capacidade, mecanismo que poderá acelerar a integração de fontes intermitentes. Embora em fase de implementação, essas iniciativas sinalizam o reconhecimento de que a expansão renovável depende não apenas de recursos naturais, mas de infraestrutura de flexibilidade e estabilidade.

Nesse contexto, a eletrificação de veículos e equipamentos emerge como um componente estratégico da transição energética. Além de reduzir emissões, elétricos podem atuar como armazenamento distribuído, devolvendo energia à rede em momentos de pico (V2G). Integrados a sistemas solares e baterias estacionárias, fortalecem microrredes e aumentam a resiliência do sistema em crises. A experiência internacional mostra que a mobilidade elétrica é também política de segurança energética: reduz dependência de combustíveis fósseis e amplia flexibilidade, tornando países menos vulneráveis a choques geopolíticos. Para o Brasil, acelerar esse processo significa transformar sua matriz renovável em ativo estratégico diante da instabilidade global.

A Necessidade Estratégica de um Gabinete de Crise Energética no Brasil

O choque geopolítico no Oriente Médio já produz efeitos sobre a economia brasileira. Embora o país seja superavitário em petróleo cru e possa se beneficiar da alta dos preços internacionais, a crise expõe vulnerabilidades em cadeias estratégicas como fertilizantes, insumos farmacêuticos e infraestrutura energética. Essa combinação entre ganhos pontuais e riscos sistêmicos reforça a necessidade de mecanismos de monitoramento e resposta coordenada.

O governo já deu um primeiro passo. Em 10 de março de 2026, o Ministério de Minas e Energia criou a Sala de Monitoramento do Abastecimento, estrutura dedicada a acompanhar diariamente o mercado de combustíveis em articulação com a ANP e agentes do setor. A iniciativa sinaliza o reconhecimento da gravidade do choque externo, mas seu escopo — restrito a derivados de petróleo — revela-se insuficiente diante das vulnerabilidades expostas.

Três frentes críticas justificam a evolução desse mecanismo para um Gabinete de Crise Energética interministerial e com mandato ampliado: a cadeia farmacêutica (dependente de princípios ativos da Índia transportados via hubs no Oriente Médio), os fertilizantes (1/3 da ureia global transita por Ormuz, com efeitos diretos sobre custos agrícolas e inflação de alimentos) e o próprio sistema elétrico, cuja matriz renovável — com crescente participação de fontes intermitentes — tem na limitada capacidade de armazenamento seu principal gargalo, já reconhecido pela Lei 15.269/2025.

Um gabinete com composição interministerial permitiria integrar monitoramento logístico, energético e industrial, antecipando riscos e coordenando respostas emergenciais. Mais do que uma medida emergencial, trata-se de um instrumento de governança estratégica em um cenário internacional de volatilidade crescente. A sala recém-criada deve ser vista como o primeiro degrau dessa arquitetura institucional.

Implicações para a Governança Climática e o Posicionamento Brasileiro

O conflito no Oriente Médio insere-se em um contexto mais amplo de fragmentação da ordem internacional e crescente pressão sobre o multilateralismo. A capacidade da comunidade internacional de manter compromissos climáticos diante de choques geopolíticos constitui um teste decisivo para a atual arquitetura de governança climática.

Nesse cenário, o Brasil enfrenta um duplo imperativo estratégico. De um lado, mitigar os impactos imediatos da instabilidade externa — o que reforça a necessidade de um Gabinete de Crise Energética e de investimentos acelerados em armazenamento e resiliência. De outro, fortalecer seu posicionamento na geopolítica climática global, reconhecendo que instrumentos como os mercados de carbono têm limites diante de um sistema internacional marcado por conflitos e emissões pouco reguladas.

A vantagem comparativa brasileira, matriz renovável, biodiversidade, bioeconomia e biocombustíveis, pode ser convertida em influência diplomática. Isso implica ampliar o debate sobre emissões militares, construir coalizões por segurança energética e investir em capacidades próprias de monitoramento e resposta a crises, reduzindo dependências externas. A transição energética global, afinal, não depende apenas de tecnologia e mercados, mas de estabilidade política e cooperação internacional, uma realidade geopolítica à qual a governança climática precisará se adaptar.

Conclusão e políticas de adaptação

O conflito no Oriente Médio expõe a vulnerabilidade estrutural da dependência fóssil, os limites dos mercados de carbono e a urgência de resiliência energética nacional. Para o Brasil, a oportunidade está em transformar choques em capacidade estratégica, consolidando o Gabinete de Crise Energética interministerial, acelerar armazenamento de energia, integrar mobilidade elétrica e liderar na governança climática. Não se trata apenas de reagir, mas antecipar, coordenar e liderar a transição energética em um mundo geopoliticamente instável.


Referências e leitura recomendada:

AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA (ANEEL). Armazenamento de energia: Aneel publica análise das contribuições recebidas em consulta pública. Brasília: ANEEL, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/aneel/pt-br/assuntos/noticias/2025/armazenamento-de-energia-aneel-publica-analise-das-contribuicoes-recebidas-em-consulta-publica. Acesso em: 16 mar. 2026.

AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA (ANEEL). Em dois meses, potência de geração no Brasil foi ampliada em 1,2 GW. Brasília: ANEEL, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/aneel/pt-br/assuntos/noticias/2026/em-dois-meses-potencia-de-geracao-no-brasil-foi-ampliada-em-1-2-gw. Acesso em: 16 mar. 2026.

BRASIL (2025). Lei nº 15.269, de 2025. Dispõe sobre o armazenamento de energia elétrica, altera a legislação do setor elétrico e institui o Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura de Armazenamento de Energia (Reidi-Armazenamento). Diário Oficial da União, Brasília, DF.

BRASIL. Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (SECOM). Governo do Brasil cria sala de monitoramento para acompanhar mercado de combustíveis em meio ao conflito no Oriente Médio. Brasília, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/secom/pt-br/acompanhe-a-secom/noticias/2026/03/governo-do-brasil-cria-sala-de-monitoramento-para-acompanhar-mercado-de-combustiveis-em-meio-ao-conflito-no-oriente-medio. Acesso em: 16 mar. 2026.

EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA (EPE). EPE publica o Relatório Síntese do Balanço Energético Nacional 2025. Brasília: EPE, 29 maio 2025. Disponível em: https://www.epe.gov.br/pt/imprensa/noticias/epe-publica-o-relatorio-sintese-do-balanco-energetico-nacional-2025. Acesso em: 16 mar. 2026.

ICL NOTÍCIAS. Guerra Irã expõe Brasil a risco em remédios e insumos. São Paulo: ICL Notícias, 2026. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/guerra-ira-expoe-brasil-remedios-e-insumos/. Acesso em: 16 mar. 2026.

INTERNATIONAL ENERGY AGENCY (IEA). Oil security and emergency response. Paris: IEA. Disponível em: https://www.iea.org/about/oil-security-and-emergency-response/strait-of-hormuz. Acesso em: 16 mar. 2026.

NAÇÕES UNIDAS. How conflict impacts our environment. Disponível em: https://www.un.org/en/peace-and-security/how-conflict-impacts-our-environment. Acesso em: 16 mar. 2026.

PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O MEIO AMBIENTE (UNEP). Environment in Iraq: UNEP progress report. Genebra: UNEP, 2003. Disponível em: https://www.unep.org/resources/report/environment-iraq-unep-progress-report-2003. Acesso em: 16 mar. 2026.

UOL. Aneel retira de pauta regulação para sistemas de armazenamento de energia elétrica. UOL Economia, 10 mar. 2026. Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2026/03/10/aneel-retira-de-pauta-regulacao-para-sistemas-de-armazenamento-de-energia-eletrica.htm. Acesso em: 16 mar. 2026.


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