{"id":190,"date":"2025-10-01T10:42:37","date_gmt":"2025-10-01T13:42:37","guid":{"rendered":"https:\/\/naqikarbon.com\/?p=190"},"modified":"2026-04-01T12:24:02","modified_gmt":"2026-04-01T15:24:02","slug":"saberes-tradicionais-biocultura-crise-climatica-descarbonizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/naqikarbon.com\/?p=190","title":{"rendered":"Sil\u00eancio da biocultura: a desvaloriza\u00e7\u00e3o de saberes tradicionais em sustentabilidade"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cada vez mais o foco est\u00e1 em cumprir metas de carbono, deixando para tr\u00e1s saberes tradicionais que genuinamente ajudariam a combater a crise clim\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">Por: Jo\u00e3o Azevedo e Pedro Boreck<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1920\" height=\"1080\" data-attachment-id=\"196\" data-permalink=\"https:\/\/naqikarbon.com\/?attachment_id=196\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/naqikarbon.com\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/imagem-de-drone-de-um-grupo-de-voluntarios-plantando-arvores-e-preservando-natureza.webp?fit=1920%2C1080&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1920,1080\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;caption&quot;:&quot;Drone shot of volunteers group planting trees and preserving nature, growing seedlings together and cleaning the environment. Ecological activists gardening, habitat cultivation. Camera A.&quot;,&quot;title&quot;:&quot;Drone shot of volunteers group planting trees and preserving nature&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"Drone shot of volunteers group planting trees and preserving nature\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"&lt;p&gt;Drone shot of volunteers group planting trees and preserving nature, growing seedlings together and cleaning the environment. Ecological activists gardening, habitat cultivation. Camera A.&lt;\/p&gt;\n\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/naqikarbon.com\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/imagem-de-drone-de-um-grupo-de-voluntarios-plantando-arvores-e-preservando-natureza.webp?fit=1024%2C576&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/naqikarbon.com\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/imagem-de-drone-de-um-grupo-de-voluntarios-plantando-arvores-e-preservando-natureza.webp?resize=1920%2C1080&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-196\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto por Camera A, freepik.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Buscando emitir selos meramente demag\u00f3gicos, empresas, governos e cientistas estudam incessantemente a cria\u00e7\u00e3o de novos modelos sustent\u00e1veis. Dessa forma, paralelamente, algo tr\u00e1gico acontece: o desaparecimento de saberes tradicionais. O sil\u00eancio da biocultura n\u00e3o apenas desvaloriza valores culturais ricos, como tamb\u00e9m diminui a nossa capacidade de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s abruptas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Neste artigo, a Naq\u012bKarbon vai te ajudar a entender por que tudo isso importa tanto \u2014 e como exatamente o abandono de conhecimentos ancestrais amea\u00e7a horizontes positivos de enfrentamento \u00e0 crise clim\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o n\u00e3o se esque\u00e7a de passar o seu protetor solar e venha conosco!<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/www.blogger.com\/blog\/post\/edit\/279375757690984638\/1247914394666789857#\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogger.googleusercontent.com\/img\/b\/R29vZ2xl\/AVvXsEikLRDTJlqtTI0XDeuQT0hqOVD6l5O4hQuNsJPamiQI4qhvQirp3TvAL58mKxwWmuDLF8RIsztL8gtELksCaHZvyd5MO7nHfwlq4H6tiFBi-tAkkmUEdVkFQTI9TTErVZtqM1Ky9d7NCQ-TwkEh4qKAiz4m0Oc2qzEuTWC5y3MLvMfwlN1Jiw7SjZJlSE0\/w640-h200\/Biocultura%20teia.jpg?ssl=1\" alt=\"\"\/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>A teia da biocultura e o perigo do esquecimento<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Antes de mais nada: o que \u00e9 biocultura? Bom, ela representa a rela\u00e7\u00e3o que h\u00e1 entre a diversidade da natureza e as pr\u00e1ticas culturais humanas. Na pr\u00e1tica, podemos exemplificar isso com costumes sustent\u00e1veis de povos ind\u00edgenas, quilombolas e de outras comunidades tradicionais \u2014 desde t\u00e9cnicas de manejo da terra e conserva\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies at\u00e9 formas de agricultura adaptadas ao clima e usos altamente eficientes de recursos naturais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Esses conhecimentos passaram de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias formas, como na fala, nos ritos, na pr\u00e1tica coletiva, entre outras. Em linhas gerais, s\u00e3o verdadeiras bibliotecas vivas de sabedoria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Mas essa riqueza est\u00e1 em risco. Em 2021, a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.fao.org\/brasil\/pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">FAO<\/a>&nbsp;j\u00e1 alertou que saberes agr\u00edcolas tradicionais est\u00e3o desaparecendo rapidamente. Calcula-se que 75% da diversidade gen\u00e9tica das culturas alimentares do mundo foi perdida desde o come\u00e7o do s\u00e9culo XX. O resultado s\u00e3o comunidades mais expostas a pragas, secas e mudan\u00e7as bruscas no clima, al\u00e9m da perda de autonomia alimentar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">O colapso ecol\u00f3gico contempor\u00e2neo n\u00e3o \u00e9 apenas um problema t\u00e9cnico ou ambiental, mas uma muta\u00e7\u00e3o civilizat\u00f3ria que desafia os fundamentos da modernidade. A separa\u00e7\u00e3o entre natureza e sociedade, central ao pensamento &#8220;moderno&#8221; ocidental, produziu um imagin\u00e1rio de progresso infinito que, ao negar a ag\u00eancia do mundo em que vivemos, culminou em tal colapso. Em contraponto, conhecimentos tradicionais, de diversos povos, oferecem cosmologias que reconhecem a interdepend\u00eancia entre humanos e n\u00e3o humanos, apontando para caminhos de resili\u00eancia e sustentabilidade. Defende-se que a descarboniza\u00e7\u00e3o precisa ser compreendida n\u00e3o apenas como transi\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, mas como transforma\u00e7\u00e3o \u00e9tica, pol\u00edtica e ontol\u00f3gica. A crise clim\u00e1tica que atravessamos n\u00e3o pode mais ser entendida como uma &#8216;crise passageira&#8217; ou como uma anomalia a ser corrigida com ajustes t\u00e9cnicos. Como argumenta Bruno Latour, estamos diante de uma muta\u00e7\u00e3o civilizat\u00f3ria irrevers\u00edvel: o Antropoceno revelou que os humanos n\u00e3o apenas habitam a Terra, mas tornaram-se for\u00e7a geol\u00f3gica capaz de remodelar ciclos clim\u00e1ticos e ecol\u00f3gicos, ao mesmo tempo em que a pr\u00f3pria Terra se apresenta como um agente ativo, reativo e imprevis\u00edvel. A ideia moderna de &#8216;Natureza&#8217; como pano de fundo inerte e est\u00e1vel desmorona quando nos deparamos com inc\u00eandios florestais de propor\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas, com a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel dos mares ou com a instabilidade do clima global. A Terra, pelos &#8220;modernos&#8221; concebida como cen\u00e1rio, tornou-se protagonista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">O n\u00facleo do diagn\u00f3stico de Latour (2020) est\u00e1 justamente na cr\u00edtica \u00e0 dicotomia moderna entre natureza e sociedade, ci\u00eancia e pol\u00edtica, fato e valor. Essa separa\u00e7\u00e3o permitiu que o Ocidente acreditasse em um &#8220;progresso&#8221; ilimitado, como se o planeta fosse apenas reposit\u00f3rio de recursos infinitos. Ao negar a ag\u00eancia da chamada &#8220;natureza&#8221;, projetou-se a fic\u00e7\u00e3o de um crescimento sem fim, conduzido pela promessa de controle humano dos recursos. No entanto, a pr\u00f3pria emerg\u00eancia clim\u00e1tica mostrou que esse modelo \u00e9 insustent\u00e1vel. O mundo em que vivemos, como figura te\u00f3rica e pol\u00edtica, n\u00e3o \u00e9 uma entidade benevolente nem um sistema coeso e harm\u00f4nico, mas a multiplicidade de processos inst\u00e1veis, hist\u00f3ricos e entrela\u00e7ados que mant\u00eam o planeta habit\u00e1vel, ou n\u00e3o. Ele reage \u00e0s nossas a\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o de modo previs\u00edvel ou control\u00e1vel: sua resposta \u00e9 contingente, ca\u00f3tica, e muitas vezes devastadora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Essa constata\u00e7\u00e3o nos obriga a abandonar tanto o negacionismo cient\u00edfico quanto a cren\u00e7a tecnocr\u00e1tica em solu\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas. Ambas as posturas permanecem ref\u00e9ns do mesmo imagin\u00e1rio moderno que as gerou, incapazes de reconhecer que o desafio n\u00e3o \u00e9 &#8220;controlar a natureza&#8221;, mas aprender a negociar com um mundo ativo. Cada \u00e1rvore que sombreia uma rua, reduzindo o consumo de ar-condicionado, cada raiz que fortalece o solo contra enchentes, cada microalga que capta carbono, mostra que o que chamamos de &#8220;natureza&#8221; \u00e9, na verdade, infraestrutura viva. A descarboniza\u00e7\u00e3o s\u00f3 ter\u00e1 \u00eaxito quando incorporarmos esse princ\u00edpio: o planeta n\u00e3o \u00e9 pano de fundo, mas agente de coabita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Saberes tradicionais como aliados na adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Mas o que exatamente o mundo perde quando um saber tradicional se extingue? Infelizmente, perde solu\u00e7\u00f5es que foram testadas durante s\u00e9culos e que se mostraram altamente eficazes em manter a vida em equil\u00edbrio com a &#8220;natureza&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Os sistemas de conhecimento ind\u00edgena, por exemplo, nos d\u00e3o respostas pr\u00e1ticas para enfrentar a crise clim\u00e1tica \u2014 come\u00e7ando pelo manejo agroflorestal e indo at\u00e9 t\u00e9cnicas de pesca sustent\u00e1vel, como o uso de saberes ancestrais no manejo do pirarucu na Amaz\u00f4nia. Essas pr\u00e1ticas contribuem n\u00e3o s\u00f3 na conserva\u00e7\u00e3o dos ecossistemas, mas tamb\u00e9m ajudam a economia e a pr\u00f3pria vida comunit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 por acaso que a Plataforma de Comunidades Locais e Povos Ind\u00edgenas (LCIPP), da&nbsp;<a href=\"https:\/\/brasil.un.org\/pt-br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ONU<\/a>, tanto exalta e fortalece tais conhecimentos. Afinal, as comunidades mais afetadas pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas (que n\u00e3o foram elas que provocaram) muitas vezes s\u00e3o as mesmas que guardam solu\u00e7\u00f5es ancestrais de resili\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Nesse ponto, os conhecimentos tradicionais oferecem li\u00e7\u00f5es decisivas. Muitos povos ind\u00edgenas das Am\u00e9ricas, por exemplo, nunca operaram sob o divisor natureza\/cultura; nesse contexto, rios, montanhas e animais s\u00e3o sujeitos com os quais se estabelece rela\u00e7\u00e3o de reciprocidade. Pr\u00e1ticas como a agricultura de coivara com pousio e regenera\u00e7\u00e3o, a rota\u00e7\u00e3o de ro\u00e7as e o manejo de florestas secund\u00e1rias demonstram um entendimento sofisticado de sustentabilidade, em que a regenera\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica faz parte da l\u00f3gica produtiva. O princ\u00edpio do bem viver (sumak kawsay), presente em cosmologias andinas, evidencia uma \u00e9tica que privilegia equil\u00edbrio e interdepend\u00eancia, em vez do ac\u00famulo e da explora\u00e7\u00e3o sem fim (Viveiros de Castro, 1996).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Do mesmo modo, o conhecimento tradicional da comunidade isl\u00e2mica, do qual temos maior propriedade, concebe a natureza como Am\u0101nah, um dep\u00f3sito sagrado confiado por Deus \u00e0 humanidade. O princ\u00edpio do Taw\u1e25\u012bd (unicidade) lembra que cada \u00e1rvore, rio e sopro de ar participa de uma totalidade intranspon\u00edvel entre cria\u00e7\u00e3o e Criador. Os ensinamentos prof\u00e9ticos refor\u00e7am essa \u00e9tica: plantar uma \u00e1rvore \u00e9 considerado um ato de caridade cont\u00ednua (\u1e63adaqah j\u0101riyah), e at\u00e9 mesmo o desperd\u00edcio de \u00e1gua durante as ablu\u00e7\u00f5es \u00e9 alertado. O princ\u00edpio de Tayyib (puro, bom, saud\u00e1vel ou \u00e9tico) revela-se como um conjunto de pr\u00e1ticas, que vai al\u00e9m do consumo individual: ele orienta para uma conviv\u00eancia justa e equilibrada entre todos \u2014 humanos, animais, plantas e elementos naturais. Ao exigir que o que \u00e9 l\u00edcito (Halal) seja tamb\u00e9m \u00e9tico e ben\u00e9fico e n\u00e3o prejudicial, Tayyib implica reconhecer que o bem-estar de um depende do bem-estar do todo (Nursi, 2017; Fambras, 2025; An-Nawawi, 2020).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Tais orienta\u00e7\u00f5es ecoam diretamente sobre emerg\u00eancias contempor\u00e2neas de efici\u00eancia energ\u00e9tica, reflorestamento e justi\u00e7a socioambiental. Se a modernidade ocidental produziu o colapso ecol\u00f3gico ao negar a ag\u00eancia da Terra, esses conhecimentos demonstram que h\u00e1 outras formas de habitar o mundo, mais resilientes e sustent\u00e1veis, capazes de reconhecer limites e responsabilidades. A cosmopol\u00edtica proposta por Latour encontra aqui um terreno f\u00e9rtil: n\u00e3o se trata de governar a Terra, mas de compor um coletivo que inclua humanos e n\u00e3o humanos, traduzindo suas vozes e ag\u00eancias em novas formas de decis\u00e3o e conviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>A l\u00f3gica extrativista e o apagamento de conhecimentos<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Uma triste realidade por tr\u00e1s de tudo isso \u00e9 que a perda dos saberes tradicionais n\u00e3o acontece por acaso \u2014 longe disso. Ela \u00e9 resultado de um modelo de desenvolvimento que prioriza cada vez mais a explora\u00e7\u00e3o e a padroniza\u00e7\u00e3o. Esse modelo se apropria e transforma a natureza em mercadoria, muitas vezes enxergando os conhecimentos tradicionais como meros pontos de partida para a cria\u00e7\u00e3o de novos modelos que visam maximizar o lucro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">A verdade \u00e9 que normalmente quando grandes empresas entram no campo da bioeconomia, os direitos das comunidades s\u00e3o desrespeitados e acontece a biopirataria, que \u00e9 a apropria\u00e7\u00e3o de saberes sem consentimento nem compensa\u00e7\u00e3o justa. Al\u00e9m disso, pol\u00edticas clim\u00e1ticas baseadas em solu\u00e7\u00f5es prontas \u2014 criadas fora dos territ\u00f3rios e sem participa\u00e7\u00e3o local \u2014 t\u00eam forte tend\u00eancia ao apagamento da diversidade de vis\u00f5es e supress\u00e3o da autonomia das comunidades.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Monocultura de pensamento \u2014 o pre\u00e7o de tratar a natureza como mercado<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Tentar reduzir a crise clim\u00e1tica usando apenas um m\u00e9todo generalizado e teoricamente &#8220;otimizado&#8221; \u00e9 prejudicial para todos n\u00f3s. Assim como uma monocultura agr\u00edcola fragiliza a terra, uma monocultura de pensamento afeta a nossa capacidade de encontrar respostas para perguntas cada vez mais urgentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">A rica diversidade de saberes tradicionais nunca pode ficar de fora das decis\u00f5es sobre clima. Temos que dar um basta nos projetos de &#8220;energia verde&#8221; feitos sem di\u00e1logo; chega de ignorar os impactos negativos em in\u00fameras comunidades que deveriam ser cuidadosamente protegidas!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Quando perdemos esses conhecimentos, a perda n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 cultural \u2014 estamos abrindo m\u00e3o de ferramentas que podem ser a chave para a nossa pr\u00f3pria adapta\u00e7\u00e3o e sobreviv\u00eancia no futuro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Assim, a descarboniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser vista apenas como substitui\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis f\u00f3sseis por energias limpas, ou alguma outra &#8220;solu\u00e7\u00e3o milagrosa&#8221;, que ao fim se mostra apenas paliativa ou ineficaz \u2014 mas como parte de um processo mais profundo de transforma\u00e7\u00e3o sociopol\u00edtica. Trata-se de abandonar o mito do progresso infinito e construir institui\u00e7\u00f5es, pr\u00e1ticas e valores que nos permitam viver em um mundo finito, ativo e imprevis\u00edvel. O futuro pol\u00edtico e \u00e9tico, e at\u00e9 de nossa sobreviv\u00eancia, depender\u00e1 de nossa capacidade de reconhecer a Terra como parceira e n\u00e3o como recurso, e de aprender com aqueles saberes que nunca romperam os la\u00e7os, na verdade insepar\u00e1veis, entre sociedade e natureza.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Respeito \u00e0 biocultura para uma transi\u00e7\u00e3o justa<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">N\u00e3o resta d\u00favidas de que a crise clim\u00e1tica \u00e9 tamb\u00e9m uma crise de sentidos, de vis\u00f5es de mundo e de formas de se relacionar com o mundo em que vivemos, em geral. Combat\u00ea-la ser\u00e1 imposs\u00edvel se dependermos apenas de tecnologia e da l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o atual, \u00e9 preciso imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, justi\u00e7a social e valoriza\u00e7\u00e3o da diversidade de saberes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Reconhecer e respeitar a biocultura \u2014 os conhecimentos ancestrais que sustentaram a vida por s\u00e9culos \u2014 \u00e9 essencial para garantir que toda e qualquer transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica alie justi\u00e7a e efici\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">O futuro clim\u00e1tico s\u00f3 ser\u00e1 f\u00e9rtil se for cultivado sob a luz de muitos s\u00f3is de saber!<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">O Antropoceno desvela a modernidade como uma cosmologia particular e n\u00e3o universal. Se os modernos acreditaram na neutralidade da ci\u00eancia e na passividade da natureza, conhecimentos tradicionais nos lembram que estamos enredados em uma rede de interdepend\u00eancias da qual nunca sa\u00edmos. Reaprender a habitar a Terra exige tanto cr\u00edtica \u00e0 arrog\u00e2ncia ocidental quanto abertura para cosmologias que sempre souberam viver em equil\u00edbrio com o mundo vivo. A descarboniza\u00e7\u00e3o, nesse sentido, \u00e9 mais do que t\u00e9cnica: \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica e pol\u00edtica, um convite a construir um comum terrestre capaz de sustentar a vida.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>An-Nawawi, Y. ibn S. (2020).&nbsp;<em>O Jardim dos Virtuosos<\/em>&nbsp;(Tradu\u00e7\u00e3o de Samir El Hayek; Revis\u00e3o de Sheikh Hussam Albostani). IslamHouse. Dispon\u00edvel em&nbsp;<a href=\"https:\/\/d1.islamhouse.com\/data\/pt\/ih_books\/single\/pt-jardim-dos-virtuosos.pdf\" rel=\"nofollow\">https:\/\/d1.islamhouse.com\/data\/pt\/ih_books\/single\/pt-jardim-dos-virtuosos.pdf<\/a>. Acesso em 24 set. 2025.<\/li>\n\n\n\n<li>FAMBRAS.&nbsp;<em>Alcor\u00e3o Sagrado<\/em>. Dispon\u00edvel em&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.fambras.org.br\/livro-alcorao-sagrado\" rel=\"nofollow\">https:\/\/www.fambras.org.br\/livro-alcorao-sagrado<\/a>. Acesso em 24 set. 2025.<\/li>\n\n\n\n<li>FAO.&nbsp;Indigenous Peoples&#8217; food systems: Insights on sustainability and resilience from the front line of climate change.&nbsp;Acesso em: 4 set. 2025.<\/li>\n\n\n\n<li>Latour, B. (2020).&nbsp;<em>Diante de Gaia: Oito confer\u00eancias sobre a natureza no Antropoceno<\/em>&nbsp;(Primeira, segunda e terceira confer\u00eancias). S\u00e3o Paulo: Ubu Editora.<\/li>\n\n\n\n<li>Na\u00e7\u00f5es Unidas \u2014 Brasil.&nbsp;Conhecimento ind\u00edgena pode indicar o caminho na preven\u00e7\u00e3o de crises ambientais. Acesso em: 4 set. 2025.<\/li>\n\n\n\n<li>Na\u00e7\u00f5es Unidas \u2014 Brasil.&nbsp;ONU alerta para marginaliza\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas na luta contra mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Acesso em: 4 set. 2025.<\/li>\n\n\n\n<li>Nursi, S. (2017).&nbsp;<em>Os milagres do Profeta Mohammad e o tratado dos milagres do Alcor\u00e3o<\/em>&nbsp;(Tradu\u00e7\u00e3o de S. El Hayek; Revis\u00e3o de E. Kosker). RNK Ne\u015friyat Pazarlama San. Tic. A.\u015e.<\/li>\n\n\n\n<li>Revista de Direito e Sustentabilidade.&nbsp;A Sustentabilidade Ambiental e os Conhecimentos Tradicionais no Manejo do Pirarucu na Amaz\u00f4nia.&nbsp;Acesso em: 4 set. 2025.<\/li>\n\n\n\n<li>SIGMA EARTH.&nbsp;Conhecimento Ecol\u00f3gico Tradicional (TEK): Um Guia Abrangente. Acesso em: 4 set. 2025.<\/li>\n\n\n\n<li>Viveiros de Castro, E. (1996).&nbsp;<em>Os pronomes cosmol\u00f3gicos e o perspectivismo amer\u00edndio<\/em>.&nbsp;<em>Mana<\/em>, 2(2), 115-144.&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/mana\/a\/F5BtW5NF3KVT4NRnfM93pSs\/?format=pdf&#038;lang=pt\" rel=\"nofollow\">https:\/\/www.scielo.br\/j\/mana\/a\/F5BtW5NF3KVT4NRnfM93pSs\/?format=pdf&#038;lang=pt<\/a><\/li>\n\n\n\n<li><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogger.googleusercontent.com\/img\/b\/R29vZ2xl\/AVvXsEimhD8bS9Kn2K1WthPrww8F0METDWMpYnYH8o5nORa_hLFXNlNYk8dAHlVkJT2D57Kbt9DGRUivf__oC0dqfzjjNU1R13si5jsJrE1SjNlY45CbzlMnOvsgBLILc3_ERj9BD4NbtOdZW4wK8_sX96LDjyXirTwMoNLj6XCVheTBfIY0sOb3qBnn1FOH-8k\/w247-h247\/naqikarboncircular.png?ssl=1\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-small-font-size wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.blogger.com\/blog\/post\/edit\/279375757690984638\/1247914394666789857#\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><\/a>Naq\u012bKarbon&nbsp;|&nbsp;<em>Descarboniza\u00e7\u00e3o Sustent\u00e1vel e Urbana com \u00c9tica e Rastreabilidade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O foco exclusivo em metas de carbono tem contribu\u00eddo para o apagamento de saberes tradicionais essenciais \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica. Este artigo analisa a import\u00e2ncia da biocultura, dos conhecimentos ancestrais e das cosmologias n\u00e3o modernas para uma transi\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica justa, \u00e9tica e efetiva.<\/p>\n","protected":false},"author":267604537,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"single-with-sidebar","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_wpcom_ai_launchpad_first_post":false,"_jetpack_hide_featured_image":false,"_jetpack_featured_image_duplicate_dismissed":0,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[785428721],"tags":[785428873,785428871,785428798,21992740,785428863,785428469,785428872,785428846,695027369],"class_list":["post-190","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-divulgacao-e-informacao","tag-antropoceno","tag-biocultura","tag-crise-climatica","tag-descarbonizacao","tag-justica-socioambiental","tag-naqikarbon","tag-povos-indigenas-e-comunidades-tradicionais","tag-saberes-tradicionais","tag-transicao-justa"],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pgPuop-34","jetpack-related-posts":[{"id":1863,"url":"https:\/\/naqikarbon.com\/?p=1863","url_meta":{"origin":190,"position":0},"title":"Governan\u00e7a Clim\u00e1tica no Brasil: ci\u00eancia, territ\u00f3rio e integra\u00e7\u00e3o de saberes","author":"Naq\u012bKarbon","date":"25 de mar\u00e7o de 2026","format":false,"excerpt":"Uma leitura estrutural da governan\u00e7a clim\u00e1tica: desigualdade, territ\u00f3rio e os limites das solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas na constru\u00e7\u00e3o do mercado de carbono.","rel":"","context":"Em &quot;Reports&quot;","block_context":{"text":"Reports","link":"https:\/\/naqikarbon.com\/?cat=785428946"},"img":{"alt_text":"","src":"https:\/\/i0.wp.com\/naqikarbon.com\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CAPA-GOVERNANCA-CLIMATICA-NO-BRASIL-3.jpg?fit=1200%2C675&ssl=1&resize=350%2C200","width":350,"height":200,"srcset":"https:\/\/i0.wp.com\/naqikarbon.com\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CAPA-GOVERNANCA-CLIMATICA-NO-BRASIL-3.jpg?fit=1200%2C675&ssl=1&resize=350%2C200 1x, https:\/\/i0.wp.com\/naqikarbon.com\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CAPA-GOVERNANCA-CLIMATICA-NO-BRASIL-3.jpg?fit=1200%2C675&ssl=1&resize=525%2C300 1.5x, https:\/\/i0.wp.com\/naqikarbon.com\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CAPA-GOVERNANCA-CLIMATICA-NO-BRASIL-3.jpg?fit=1200%2C675&ssl=1&resize=700%2C400 2x, https:\/\/i0.wp.com\/naqikarbon.com\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/CAPA-GOVERNANCA-CLIMATICA-NO-BRASIL-3.jpg?fit=1200%2C675&ssl=1&resize=1050%2C600 3x"},"classes":[]},{"id":1291,"url":"https:\/\/naqikarbon.com\/?p=1291","url_meta":{"origin":190,"position":1},"title":"Groenl\u00e2ndia: saberes tradicionais em risco","author":"Naq\u012bKarbon","date":"22 de janeiro de 2026","format":false,"excerpt":"An\u00e1lise sobre a Groenl\u00e2ndia, o avan\u00e7o geopol\u00edtico no \u00c1rtico e o risco de perda dos saberes tradicionais inu\u00edtes em um contexto de crise clim\u00e1tica estrutural.","rel":"","context":"Em &quot;Artigos de An\u00e1lise&quot;","block_context":{"text":"Artigos de An\u00e1lise","link":"https:\/\/naqikarbon.com\/?cat=784526989"},"img":{"alt_text":"Groelandia insightfull","src":"https:\/\/i0.wp.com\/naqikarbon.com\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/herd-horses-grazing-with-church-background.webp?fit=1200%2C749&ssl=1&resize=350%2C200","width":350,"height":200,"srcset":"https:\/\/i0.wp.com\/naqikarbon.com\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/herd-horses-grazing-with-church-background.webp?fit=1200%2C749&ssl=1&resize=350%2C200 1x, https:\/\/i0.wp.com\/naqikarbon.com\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/herd-horses-grazing-with-church-background.webp?fit=1200%2C749&ssl=1&resize=525%2C300 1.5x, https:\/\/i0.wp.com\/naqikarbon.com\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/herd-horses-grazing-with-church-background.webp?fit=1200%2C749&ssl=1&resize=700%2C400 2x, https:\/\/i0.wp.com\/naqikarbon.com\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/herd-horses-grazing-with-church-background.webp?fit=1200%2C749&ssl=1&resize=1050%2C600 3x"},"classes":[]},{"id":774,"url":"https:\/\/naqikarbon.com\/?p=774","url_meta":{"origin":190,"position":2},"title":"A nova fase da transi\u00e7\u00e3o: perspectivas estrat\u00e9gicas para o p\u00f3s-COP30","author":"Naq\u012bKarbon","date":"15 de fevereiro de 2026","format":false,"excerpt":"An\u00e1lise cr\u00edtica do Pacote de Bel\u00e9m da COP30 sob a lente da governan\u00e7a clim\u00e1tica, risco institucional e justi\u00e7a socioambiental. 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